ESCONDERIJOS PORTÁTEIS

A origem desse processo remonta a minha infância quando tinha o hábito de criar microesconderijos no pátio da minha casa assim como na casa de meus avós. Era um processo estranho onde cavava pequenos buracos na terra e, usando cascas de árvores e gravetos, elaborava estruturas, espaços vazios, que seriam camuflados e que serviriam de esconderijo e refúgio para os momentos difíceis. Esses refúgios não eram grandes, tinham em média uns 10 cm³, espaço que eu julgava suficiente para descansar mentalmente. A ideia não era inserir o corpo ali, mas, sim, a imaginação. Antes de fechar o refúgio – geralmente com uma pedra – tentava guardar o máximo de informações do local. Detalhes das paredes de terra preta, do teto feito de casca de cinamomo, do cheiro dos musgos que usava como revestimento do chão, enfim, da mesma forma que me transportava mentalmente para dentro dele, transportava-o ele para dentro de mim. Era como uma troca. Projetava naquele pequeno espaço um corpo que não existia assim como projetava em meu corpo um espaço que não existia. Uma vez que o refúgio estivesse fechado e camuflado na paisagem, ao mesmo tempo em que eu ficava ali dentro, levava o refúgio fechado e camuflado dentro de mim. E isso era uma sensação muito boa.

Naquele momento não pensava em arte, entretanto, hoje credito muito a essa experiência os meus gestos e pensamentos na arte. Penso nos objetos que carrego em mim e em quanto carrego os objetos que me cercam. Esses espaços vazios que são completados em mim e nas coisas por mim, num constante movimento de preenchimento e esvaziamento, numa relação entre o corpo e o meio que o cerca, os espaços circundantes e que nos formam.

Concepção e realização artística / Conception and artistic director / Création et direction artistique Diego Kern Lopes

Esconderijos portáteis

Diego Kern Lopes

Escultura

Terra, pedras, galhos e vaso de cerâmica

Vitória

2018